
Há exatamente um ano você apareceu na minha vida. Há exatos 365 dias você ocupa meus pensamentos, meus devaneios, minhas conversas ao telefone e minhas sessões de terapia. Aliás, como diria ela, você já me fez gastar muito dinheiro com psicólogo. Está me devendo muita grana. No dia cinco de Agosto de dois mil e nove, eu o via entrar pelo corredor com aquela bata branca, o livro precioso nas mãos, olhos e tatuagens colorindo aquela noite e os outros demais 364 dias. Na hora que o vi caminhar e sentar ao meu lado sabia que naquele momento eu, de alguma forma, estaria profundamente ligada à você. E não é que o destino se encarregou direitinho de me amarrar ao teu pé. Dois dias depois veio a música e o show. Episódio do qual eu me torturo lembrando diariamente. Lembro-me de procurá-lo pelo salão, de observá-lo, de apreciar cada movimento seu. Daí pra paranóia foi um pulo. Passei a te procurar em cada rua, em cada esquina, em casa música, na sua faculdade, em cada vestígio de pegadas suas. Eu estava cada dia mais viciada. As doses de você precisavam ser tomadas diariamente. Mas como nosso organismo cria uma espécie de “tolerância” com a nossa dependência, as doses teriam de ser aumentadas. Todos os dias eram poucos. Eu já não conseguia ficar mais que alguns instantes sem trazer você à tona na minha mente. Eu precisava de você. Até os livros que eu li eram marcados pela sua presença. Até quando Hermann Hesse descrevia o Lobo da Estepe eu achava que ele estava descrevendo você, ao dizer: "Bem pouco é o que sei a seu respeito, sendo-me particularmente desconhecido seu passado e a sua origem: conservo, entretanto, de sua personalidade uma forte impressão e - cumpre-me declará-lo - bastante simpática, apesar de tudo (...) Mas intimamente na alma, esse homem nos perturbou e prejudicou, tanto a minha tia quanto a mim, e, a bem dizer, até hoje ainda não consegui me libertar dele. Às vezes, ainda sonho com ele, e sinto-me profundamente perturbado e inquieto por sua causa e pela simples existência de um ser assim, embora tenha vindo a sentir por ele um verdadeiro afeto (...) Veja só está frase em Novális 'O homem devia orgulhar-se da dor; toda dor é uma manifestação da nossa elevada estirpe' (...) A maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer'. Não é engraçado? Naturalmente, não querem nadar. Nasceram para andar na terra e não para a água. E naturalmente, não querem pensar: foram criados para viver e não para pensar! Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito longe com isso, mas sem dúvida, estará confundindo a terra com a água e um dia morrerá afogado". Eu já não conseguia fazer algo sem relacionar à você. Foram dias muitos duros e escassos da sua valiosa presença. Se quando acordada, eu não pensava nos seus olhos verdes, nas suas tatuagens excêntricas, no seu alemão, na nossa conversa em inglês, fazia questão de dormir só pra ter o prazer de te ver dar leveza as minhas madrugadas. Nossos encontros informais pelas ruas da cidade só fortaleciam minha doença e toda a mínima tentativa de resistência à você era violentamente destruída. As estações do ano passavam e já que você estava seguindo sua vida eu também precisava seguir a minha. Então resolvi deixar o platonismo de lado e ir te eliminando aos poucos. Afinal, a abstinência de você era dolorosa demais pra mim. E assim, com o teu sumiço e o meu esforço sobre-humano, coisas e pessoas foram ocupando seu antigo espaço me fazendo poder respirar e pensar: “Só por hoje eu não tomei a dose dele”. Eu ia bem, aliás, mais que bem. Durante um período considerável meu mundo parava de girar em torno de você. Durante aquele momento você deixou de roubar o meu tempo. Mas como diz a sábia Martha Medeiros: “O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções.” E quando eu achava que tudo ia caminhando eis que meu telefone toca. Eis que você ressurge das cinzas pra testar a minha medíocre força. Acho que jamais vou esquecer a sensação que tive ao ver que era você ligando. Será que depois de tanto tempo a ficção atravessaria as leis da física e se tornaria realidade? Você me chamou e eu fui. Fui ao encontro do meu sonho, mas de encontro à você. Cedi até onde pude e depois você evitou até onde pôde. Os beijos, os toques, a respiração, a sua vontade de sentir o meu corpo, eu sentindo o seu. Tudo perfeito demais pra mim. Por que você tinha que mexer com quem estava quieta num sonho pesado e intemporal? Completamente desnecessário dizer que o susto foi grande. Bem parecido com aqueles pesadelos que acordamos gritando no meio da noite. No meu caso o pesadelo foi ter voltado a injetar altas doses de você novamente. A overdose veio e a seqüela dessa aventura está marcada na minha pele pra sempre. Espero que ao menos o significado dela se manifeste e me dê o que prediz. Tirarei forças do fundo do meu âmago, é só o que me resta. Hoje olho pra todo esse tempo e pergunto à quê você veio. Tantas coisas você me disse, me demonstrou, me fez sentir. Hoje eu te vejo e sei o quão enganada estava ao esquecer de humanizar você, de te olhar realmente, sem lirismo, evitando qualquer romantismo. Agora pronto a sua dose de imbecilidade está cumprida. Enquanto isso peço encarecidamente que você pare com os telefonemas e as mensagens, não resisto à você. Fato! Então que me deixe voltar pra minha clínica e tentar minha reabilitação. Agora é o início do fim do meu tormento. Just leave me alone, please!